Desabamentos - ocupação solastalgia
2023
Aqui havia um rio, uma corredeira transparente que seguia um curso pedregoso e lustroso acompanhando o emaranhado da mata. Era tudo verde, cinzas e azuis verdejantes. Na madrugada
do dia 2 de abril de 2022, depois de chover 858 mm em 72 horas – o equivalente a quase uma tonelada de água por metro quadrado – uma placa tectônica gigante se deslocou. Junto com ela, parte da floresta intocada desabou sobre o Rio Grande. O desastre assoreou o rio e interrompeu o seu curso. O rio onde as famílias se banhavam e as crianças caçavam pitu desapareceu. Camadas de histórias de muitas gerações viraram tormenta, cachoeira de lama, desterro. Um segundo estrondo, do outro lado dessa mesma montanha, deslocou outro fragmento. Levou sete casas e a vida de uma família inteira, Lucimar e sete filhos, soterrados pela enxurrada. O Rio Grande achou seus caminhos para desaguar no mar. A comunidade aguarda, sem previsão, a construção das moradias perdidas. Quando chove, ninguém dorme, estão desacreditados dos laudos de geólogos e das promessas políticas. Sentem a natureza, o vento que traz tempestade, o jacu que deixa de cantar.
As 43 famílias que vivem em Ponta Negra, nesta vila incrustada entre a praia e a Mata Atlântica, aguardam resilientes o tempo de regeneração. Solastálgicos.
Créditos
Desabamentos I 2023 I Ensaio textuo-visual realizado para a galeria online @solastalgia no Instagram, extensão da exposição “Solastalgia” de Lucas Bambozzi, no MAC-USP.










